sábado, 9 de abril de 2011

ESTUDO SOBRE O EVANGELHO DE JOÃO IV


Prof. Seminarista Marcos
A REVELAÇÃO MAIS PROFUNDA DO AMOR DE DEUS

Texto: Jo 3.16-21


INTRODUÇÃO

            Vimos no estudo da semana passada sobre o novo nascimento. Hoje estudaremos sobre o amor de Deus, revelado de uma forma muito especial. O texto no qual nos debruçaremos é Jo 3.16-21 e nele o Filho de Deus é revelado como uma demonstração mais clara do seu amor pelo mundo. Assim, a autoria desse amor, o caráter, o seu objeto e sua dádiva para realização serão pesquisados por nós, para podermos compreender a dimensão dessa revelação de Deus ao mundo, no evangelho de João. Aqui aplicamos uma frase que já mencionamos outras vezes nos estudos anteriores sobre a singularidade desse escrito em outros temas, ou seja, nenhum outro livro da Bíblia retrata de forma tão gloriosa a revelação do amor de Deus pelo homem. Por isso, analisaremos esse tema e iremos descobrir maravilhas sobre o amor de Deus.

O QUE É O AMOR?

            Na lei de Moisés[1], nos primeiros cinco mandamentos encontramos Deus dando regras ao seu povo no sentido de adoração a Ele, fidelidade, respeito (obediência) era a dimensão vertical da relação entre Deus e o homem, representado por seu povo, Israel. Nos outros cinco encontramos Deus dando mandamentos sobre o relacionamento horizontal, ou seja, o homem com o próprio homem. Porém, no Antigo Testamento, a palavra amor aparece poucas vezes, mesmo que as atitudes de Deus em relação ao seu povo sejam atitudes de amor. Contudo, a compreensão do significado desse vocábulo não é bem compreendida ao relacionamento vertical do homem em relação a Deus No A.T.  Mas Deus não deixa de revelar que tudo o que fez e suportou da nação israelita se deveu ao seu profundo amor, como é registrado em Isaías 63.9:
“Em toda a angústia deles, foi ele angustiado, e o Anjo da sua presença os salvou; pelo seu amor e pela sua compaixão, ele os remiu, os tomou e os conduziu todos os dias da antiguidade”.
            Quando se inaugura o reino de Deus com o início do ministério de Cristo ele é indagado sobre os maiores mandamentos da lei de Moisés e responde assim:
“amarás pois o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força e o segundo é: amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mc 12.30,31 cf. Dt 6.4).
            Entretanto, Jesus começa seu ministério falando de amor, pois no Sermão do Monte usa a fórmula “ouvistes o que foi dito”, para dimensionar a nova aliança como superior a velha aliança e assim, passar a demonstrar, de forma prática a realidade do amor de Deus pelos homens, que deveriam amar ao invés de odiar, como interpretavam os mandamentos da lei.
            Chegando ao conceito mais profundo de amor dado por João em toda a Bíblia descobrimos que o amor de Deus é algo que traz o seu caráter (de tal maneira), ou seja, “em tal grau infinito e de tal maneira gloriosamente transcendente”[2], explicando: a infinitude do amor de Deus se revela totalmente em favor do outro. Que outro? O homem. A autoria desse amor tão grande só poderia ser de Deus, pois somente um ser com as suas características seria possível amar de forma tão perfeita e profunda. Seu objeto é o homem, pois somente o homem é capaz de interagir com Ele e a dádiva de Deus em favor do objeto é o seu próprio Filho, Jesus.
            A nossa preocupação não é descobrir o conceito de amor, mas mostrar que apenas Deus consegue não apenas demonstrar esse conceito, mas também praticá-lo em prol da humanidade.
O apóstolo Paulo vai resumir a compreensão do amor ao dizer:
“mas Deus prova o seu amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8).
Jesus Cristo, falando aos seus discípulos nos diz:
“ninguém tem maior amor do que este; de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos” Jo 15.13.
            Os gregos possuem três palavras para amor: αγάπη[3], ερως[4] e φιλέω[5], isso é benéfico, pois a nossa língua só possui uma que engloba todos os tipos de amor, mas não impede que compreendamos que o amor de Deus é perfeito porque é sacrificial e carrega todas as características de 1Co 13.
            Portanto, para descobrir o que é amor é bastante se submeter ao amor de Deus, que é infinito e derramado em prol do mundo.

O OBJETIVO DO AMOR DE DEUS

            Tudo que Deus faz tem um objetivo prático. No caso do texto que estamos estudando o objetivo primário é salvar o mundo através do sacrifício de Cristo. O versículo 17 vai nos dizer: “porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas que o mundo fosse salvo por ele”. Ora, isso se coaduna com as promessas messiânicas de salvação, redenção, trazidas pelos profetas, principalmente Isaías, que no capítulo 42 do seu livro fala do servo sofredor e no capítulo 53 diz que ele levou sobre si as nossas enfermidades e pelas suas pisaduras fomos sarados.
            O objetivo de Deus através de Jesus Cristo não foi condenar o mundo, mas aperfeiçoando-se a revelação de Deus, Jesus é o verdadeiro EMANUEL (Deus conosco), que não veio julgar, mas salvar o mundo por seu grande amor com que nos amou. O objetivo remoto, que ao mesmo tempo também é primário é nos mostrar uma “verdade eterna”[6], aquela que foi revelada desde o princípio e que se cumpre em Jesus. O texto vai nos mostrar que também havia uma inimizade entre Deus e o homem e somente o Deus encarnado poderia remover essa inimizade, através do seu amor.
            João é chamado, também de o livro das dualidades (carne e espírito, luz e trevas, vida e morte), contudo, essas dualidades são necessárias para provar que apenas Deus é capaz de remover as impossibilidades e trazer luz, vida, novo nascimento e verdadeiro amor para o mundo.
            Há um objetivo ainda mais profundo da revelação do amor de Deus revelado em Jo 3.16 principalmente “...Deus amou tanto o mundo que ele deu o que tinha de mais precioso”[7].
VÁRIAS DUALIDADES E UMA ÚNICA VERDADE
Já dissemos que o evangelho de João é conhecido pelas dualidades que apresenta, além de outras características, como os encontros ocorridos no interior do seu conteúdo, porém, os versículos de 16 a 21 do capítulo 3 mostra algumas dessa dualidades e uma única verdade, uma vez que depois de demonstrar o infinito amor de Deus e provar que apenas o Senhor El Shadai é capaz de remover a barreira da inimizade entre o homem e Deus mostra que o homem não pode alcançar a salvação por si mesmo, pois para ser salvo e não passar por condenação necessita crê em Jesus como Filho de Deus.
Outra coisa é que sem Cristo o ser humano já está condenado v. 18, se não crê no Filho de Deus, ou seja, a reconciliação somente é possível através de Jesus Cristo.
Cristo também revela a natureza do julgamento, pois a luz (Jesus) veio ao mundo, porém os homens amaram mais as trevas do que a luz, porém não sem razão, mas que as obras deles são más, ou seja, somente em Cristo as obras dos homens podem ser reveladas e aprovadas, do contrário estarão em trevas v. 19.
Quando as obras dos homens são as obras da carne, eles aborrecem a luz, para que as suas obras não sejam reveladas. Esse contraste entre a luz e as trevas fazem parte do dualismo apresentado por João, não apenas para como uma montagem literária, mas para mostrar que Cristo é a luz do mundo que se revelou na forma do pleno amor de Deus.
Isaías 59.2 vai dizer que: “...as vossas iniqüidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que não vos ouça”. Ora, a dualidade entre obras más (trevas) e luz, simplesmente mostra não se tratar tão somente de uma linguagem capaz de traduzir um pensamento, mas apresenta a realidade do homem perante Deus.
Com a queda o homem deixou de se comunicar com Deus adequadamente e não possuía capacidade de resolver o problema do pecado que ele mesmo criara. Deus, por sua vez, não poderia resolver esse problema sem que exterminasse o homem. Assim, somente encarnando, através do seu Filho Jesus seria capaz de solucionar o problema do pecado sem destruir o homem, por isso
“...crer em Jesus não é um mero reconhecimento intelectual, mas apegar-se, comprometer-se, confiar, ter fé, apoiar-se no fato que Jesus é completamente humano, ou seja, plenamente identificado conosco, e ao mesmo tempo totalmente divino, inteiramente identificado com Deus”[8].
            Além de luz e trevas o versículo 21 apresenta a dualidade entre a verdade, que é o próprio Jesus e a mentira, pois diz que quem pratica a verdade, ou seja, não é mentiroso, vem para a luz, para que suas obras sejam manifestas. Assim, Jesus conclui esse monólogo provando que somente nele pode haver luz e verdade, boas obras e salvação e sem ele há trevas, mentiras, más obras e condenação.




APLICAÇÃO

            Conhecer o amor de Deus é essencial para compreendermos a razão da nossa salvação, mas também é essencial para podermos levar adiante a mensagem desse amor inigualável. Por isso, aceitar esse amor é ter convicção de que há uma verdade eterna imutável somente Jesus Cristo pode me livrar da morte, da condenação e me fazer andar  na luz. Aceite o amor de Deus.


[1] Ex 20.1-17.
[2] HENDRIKSEN, William, in Comentários do Novo Testamento, João, São Paulo, 2004, 1ª edição, Editora Cultura Cristã, pág. 190.
[3] Amor de Deus.
[4] Amor entre um homem e uma mulher.
[5] Amizade.
[6] LADD, George Eldon, Teologia do Novo Testamento, São Paulo, 2009, 1ª edição, Editora Hagnos.
[7] STERN, DAVID. H, Comentário Judaico do Novo Testamento,  São Paulo, 2008, 1ª edição, Templus, pág. 193.
[8] STERN, op. cit. Pág. 193.

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