sábado, 16 de abril de 2011

ESTUDO SOBRE O EVANGELHO DE JOÃO V

Prof. Seminarista Marcos


A MISSÃO SAMARITANA
 Texto: Jo 4.1-18

 INTRODUÇÃO

             A valorização do elemento humano enquanto criatura de Deus, ainda que não tenha sido resgatada oficialmente pelo Senhor é uma recomendação, talvez mais, um decreto de Deus para sua igreja. Partindo desse princípio do amor às almas perdidas, da não acepção de pessoas, da preocupação com a salvação do mundo, considerando que Deus “...deseja que todos os homens se salvem e cheguem ao pleno conhecimento da verdade” (1Tm 2.4) é que assim como Jesus fez indo a Sicar, em Samaria devemos também ir aos lugares mais inóspitos do mundo, seja aqui (Jerusalém), Samaria (cidades vizinhas), Judeia (todo o nosso Estado) e até os confins da terra (o mundo) para podermos cumprir com o ide do Mestre.
            Neste estudo vamos perceber alguns lances da valorização que Jesus dá aos homens em todos os lugares, estejam na condição em que estejam. Assim vamos analisar Jo 4.1-18.

 UMA NECESSIDADE

             Já afirmamos em outras lições que o livro de João é o livro dos encontros, inclusive mencionamos o encontro do Senhor Jesus com a mulher samaritana, a qual não tem nome no texto. Contudo, há uma enorme diferença entre o encontro de Jesus no capítulo 3 com esse encontro do capítulo 4, como diz HENDRIKSEN[1]

“O contraste entre o terceiro capítulo de João (o ministério de Cristo na Judeia) e o quarto (seu ministério em Samaria) é notável. No terceiro, Jesus está conversando com um homem (Nicodemos); aqui no capítulo 4, ele conversa com uma mulher; no terceiro, ele trata com um judeu; aqui com uma samaritana; lá com uma pessoa de princípios morais elevados; aqui com um ser humano de baixa reputação. No entanto o Senhor mostra ser capaz de salvar a ambos”.

Esse encontro com a mulher somente ganha relevo, entretanto, quando descobrimos o verdadeiro motivo dele, pois cansaço, necessidade geográfica, sede, nada disso nos satisfará, quando realmente vemos nas entrelinhas dos escritos joaninos, motivos divinos, de derramamento da graça de Deus.
O que norteia a primeira parte do capítulo 4 do evangelho de João é a expressão que aparece no versículo 4 “era-lhe necessário atravessar a província de Samaria”. A pergunta que fica para nós é: essa necessidade era geográfica ou missionária? A resposta mais aceitável é que era missiológica e não geográfica, pois como relatam os historiadores havia três caminhos entre a Judeia e a Galileia, no entanto somente um deles atravessava Samaria, portanto, Jesus poderia fazer a escolha de não passar por Samaria para se deslocar da Judeia para a Galileia, mas ele estava aqui para fazer a vontade do Pai (Jo 4.34).
Havia uma indiferença muito acentuada entre os samaritanos e os judeus, gerada a partir do cativeiro assírico, que em 722 a.C, levou cativo todo o povo do reino do norte (Israel), cuja capital, na época era Samaria v. 2Rs 17.24-41, uma vez que o povo que ficou foi misturado com gente de cinco reinos pagãos Babilônia, Cuta, Ava, Hamate e Sefarvaim 2Rs 17.24. Essa diferença propagou-se até os tempos de Jesus e, quando o Senhor estava implantando o seu reino fez questão de ir a Samaria para demonstrar que tanto os judeus legítimos descendentes de Abraão, quanto os mistos, como o povo de Samaria necessitavam da graça de Deus. O posicionamento do Senhor é em razão de saber que: “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm.3:23) e também que “não há homem justo sobre a terra, que faça o bem, e nunca peque” (Ec.7:20), por isso, afirmamos que a necessidade de passar por Samaria não era geográfica, mas missionária.
A necessidade de Jesus foi suprida quando ele enlaça um diálogo com uma mulher, possivelmente adúltera, sem qualquer princípio moral elevado, sem reputação na comunidade, discriminada, mas que mereceu a atenção dele, que além de demonstrar a revelação do amor de Deus, ainda a fez missionária, para ganhar outras pessoas naquele distrito e, certamente espalhar o evangelho para aquele povo que se considerava inferior etnicamente, por não serem filhos puro sangue de Abraão, isso nos faz lembrar o que diz o apóstolo Paulo em 1Co 1.27-29:

“Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes; E Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são, para aniquilar as que são; Para que nenhuma carne se glorie perante ele,”

ou seja, a escolha daquela mulher como instrumento de propagação da mensagem da cruz de Cristo é a certeza de Deus não faz acepção de pessoas e a sua igreja também não pode fazer, mas deve sentir a necessidade de anunciar o evangelho da cruz a todas as pessoas perdidas.

 A CONQUISTA DE ALMAS    
       
             O propósito de Jesus é traçado em Mt 1.21, ou seja, salvar o seu povo dos pecados deles. Este propósito somente seria cumprido através da cruz, onde os pecados de toda a humanidade foram totalmente cancelados, como escreve o apóstolo Paulo em Cl 2.14 “havendo riscado os escritos de dívida que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz”. Porém particularmente, Jesus iniciou o ministério de propagação do reino de Deus por toda a Judeia, pela Galileia e, nesse momento do evangelho de João é alçado até a província de Samaria, pois aqueles também eram ovelhas perdidas da casa de Israel Mt 15.24.
            A salvação dos homens passa pela conquista das suas almas através do Senhor Jesus e ele queria que os samaritanos também fossem participantes do seu reino, para isso foi até aquela província conquistar as suas almas. Nesse processo utilizou-se de estratégias muito diferentes do que costumeiramente alguém poderia utilizar. Primeiro estabeleceu um diálogo com uma mulher, ainda mais uma mulher de vida pregressa a mais repugnante, pois havia tido cinco maridos e o que mantinha naquele momento era compartilhado com outra mulher Jo 4.18, utilizou-se da estratégia de iniciar um diálogo, com uma necessidade fisiológica, sede, tendo, daí em diante, passado a falar sobre a vida daquela mulher e anunciar as coisas que se passavam na vida dela, demonstrando que era profeta e, mais ainda, que era o enviado de Deus, seu Filho.
            A conquista de almas passa pela denúncia do pecado. Jesus de forma sobrenatural revelou os pecados daquela mulher, levando-a a crer que realmente ele era profeta. Uma das atividades dos profetas de Israel era a revelação dos pecados do povo e o anúncio da ação de Deus para punir, corrigir e restaurar o seu povo. Vemos isso em Isaías, Jeremias, Ezequiel e nos profetas menores, como também naqueles que não escreveram mas, denunciaram como Elias, Elizeu, Nata, Moisés, João Batista. Obviamente, o discurso de Jesus foi um tanto duro para os dias atuais, contudo isso não impede que a igreja também continue a denunciar o pecado, mostrando para as pessoas que há uma solução.
            Jesus não se limitou a denunciar o pecado daquela mulher, mas ele apontou a solução, como veremos no ponto seguinte.

JESUS A ÁGUA VIVA

             O Senhor Jesus quando inicia o contato com a mulher samaritana sofre logo uma hostilidade “como, sendo tu judeu, pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana?” Se fosse com um de nós, certamente, ou iríamos embora em razão da recepção grosseira, ou, então, responderíamos na mesma moeda, dizendo: deixe de ser mal educada! Se não disséssemos coisa mais grave. Porém, Jesus releva a grosseria daquela mulher e lhe anuncia a água viva, ou seja, ele mesmo.
            Nos versículos em que se travam o diálogo sobre a água surge uma comparação da mulher com Jesus perguntando ao mesmo se ele era maior do que Jacó, o patriarca que havia cavado o poço. Ora, a pergunta somente se justifica porque a mulher não conhecia o dom de Deus v. 10 nem a revelação de Deus v. 10. As vezes nós desistimos de evangelizar alguém porque somos interrogados acerca de um assunto conturbado ou polêmico, ou porque somos grosseiramente recebidos, mas precisamos saber que tais pessoas que assim agem não conhecem o dom de Deus e nós é que vamos lhe apresentar esse dom, ou seja, Jesus e sua salvação de graça.
            Jesus se apresenta como água viva, porque segundo David H. Stern[2], a expressão utilizada mayim chayym era conhecida da mulher e significa “água corrente de uma fonte ou de um córrego, em contraste com a água estocada numa cisterna”, pois como não havia rios correndo naquela estação, a água da cisterna era a única a que os moradores de Samaria tinham acesso, mas gostariam, certamente, de possuir água viva, corrente, elemento de muita importância para a sobrevivência deles. Por isso o espanto da mulher, quando Jesus lhe anuncia a água viva, a qual ela quer beber imediatamente. Essa linguagem das águas vivas, atribuídas a YAWH é vista, igualmente em Jr 17.13:
“O SENHOR, esperança de Israel, todos aqueles que te deixam serão envergonhados; os que se apartam de mim serão escritos sobre a terra; porque abandonam o SENHOR, a fonte das águas vivas”.
            No capítulo 7.37,38 de João ele volta a anunciar-se como a água viva, capaz de matar a sede das pessoas. Não somente isso, mas também quem beber dessa água gerará novas águas, pois nele habitará o Espírito Santo de Deus.
            O diálogo inicial de Jesus com a mulher não foi dos melhores, mas ele necessitava salvar aquela mulher e o povo de Samaria, portanto, adotou as estratégias corretas e não deixou-se vencer pela má recepção, pela grosseria, pela indiferença, pela inimizade, mas ao contrário, mostrou o pecado daquela mulher e a solução para sua vida. A igreja de Deus precisar ser assim também. Seguir os passos do Senhor.

APLICAÇÃO

             O mundo necessita de Deus. A salvação é o dom de Deus para todo o que crê em Jesus Cristo, mas para que alguém creia se faz necessário que seja anunciado o evangelho do Senhor em todos os lugares do mundo, seguindo a ordem de At. 1.8. Não importa se na favela, se no bairro nobre, se a ricos ou a pobres, letrados, drogados, prostitutas, intelectuais, criminosos. Não importa se seremos apedrejados, cuspidos, mal vistos, mal interpretados, o que importa é que anunciemos Jesus, mostrando-o como o Senhor da vida, a água viva. Não pare de anunciar.



[1] HENDRIKSEN, William, in Comentários do Novo Testamento, João, São Paulo, 2004, 1ª edição, Editora Cultura Cristã, pág. 213.
[2] STERN, DAVID. H, Comentário Judaico do Novo Testamento,  São Paulo, 2008, 1ª edição, Templus, pág. 194.

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