sábado, 23 de abril de 2011

ESTUDO SOBRE O EVANGELHO DE JOÃO VI


Prof. Seminarista Marcos

UMA CURA COM QUATRO PROPÓSITOS
Texto: Jo 5.1-19

INTRODUÇÃO

            Há muita discussão sobre os pormenores do capítulo 5 do evangelho de João. A iniciar-se pela volta do mestre para a Judeia, depois de ter saído, como narra o capítulo 4, por causa da inveja dos fariseus. Neste particular, o evangelho de João é singularmente diferente dos demais evangelhos, pois, enquanto os demais evangelhos mencionam a ida de Jesus apenas uma vez a Jerusalém, durante seu ministério, ou seja, justamente quando foi preso e crucificado, João narra que essas idas se deram por cerca de duas a três vezes (Jo 5.1; 7.10-13 e 12. 12 em diante) e sempre nas festas de peregrinos (Páscoa, Festa dos Tabernáculos e Pentecostes Ex 23.14; Lv 23.2 e Nm 15.3). Outra discussão é bibliológica, pois discute-se se o versículo 4 fazia parte do texto original ou não e ainda outro é se realmente as águas do tanque de Betesda eram realmente agitadas por um anjo ou se se tratava apenas de uma lenda. Esses pormenores não serão objetos de nosso estudo, uma vez que queremos dar um enfoque da atuação de Deus na vida da humanidade, tanto do ponto de vista da contemporaneidade de Cristo, quanto para os dias atuais.

ELUCIDAÇÃO

            Continuamos a mostrar a diferença entre os sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) e o evangelho de João, por exemplo, o apóstolo do amor menciona em seu evangelho a realização definida e apenas oito milagres[1] por Jesus, enquanto Mateus menciona cerca de vinte e cinco milagres diretos, contudo, o objetivo não é contagem dos milagres dentro dos evangelhos, mas a forma como João trabalha a ação de Jesus em todos eventos de milagres, para mostrar, através de Jesus: a) o cumprimento das profecias messiânicas, b) a apresentação da misericórdia e do poder de Deus, agora “Deus conosco) – EMANUEL – c) o confronto direto de Jesus com os grupos dirigentes da vida religiosa de Israel (fariseus, saduceus, herodianos etc.), como parte da revelação consumativa de Deus e d) revelá-lo como o verdadeiro Filho de Deus e sua missão. Essa cura se deu, possivelmente, no ano 28 da era cristã, na páscoa daquele ano.

O PROPÓSITO DE CUMPRIR AS PROFECIAS MESSIÂNICAS  E MOSTRAR AS MISERICÓRDIAS E O PODER DE DEUS

            Não pode haver dúvidas sobre a identidade de Jesus Cristo por parte dos seus fieis. Já mencionamos em estudo anterior sobre a revelação do Filho de Deus e mostramos que uma das razões da realização de milagres por parte do Senhor se deu para demonstrar os sinais da graça (Is 35.4-10), aqueles que acompanhariam o Messias (ungido). Cada Israelita esperava a vinda do Messias, primeiro como um grande general terreno, que se assentaria no trono de Davi e governaria eternamente. Milagres profetas já haviam realizado, a exemplo de Moisés, Elias, Eliseu, Ezequiel, porém, quando Jesus inicia seu ministério começa a suplantar, não somente a quantidade de milagres realizada pelos seus antecessores, mas também direciona essa realização de uma forma que dá uma dimensão de universalidade, com o intuito de mostrar a misericórdia de Deus para todos os povos e para quebrar o círculo de castas que havia sido instalada em Israel, tendo a nobreza como a totalidade dos beneficiados pela religião e o povão apenas como sustentador das regalias da classe mais abastada.
            A realização do milagre na vida do paralítico de Betesda é incomum, pois na maioria das vezes as pessoas procuravam Jesus para pedir um milagre, mas neste o próprio Jesus, demonstrando que Deus pode realmente transformar a vida das pessoas procura aquele homem, um homem que estava ali havia 38 anos, sem perspectiva alguma, esperando pelo agitar das águas do tanque de Betesda. Como dissemos acima, a discussão é longa acerca de ser uma realidade ou não a vinda de um anjo agitar as águas. Muito embora isso não fosse impossível, não podemos esquecer que nesse período todo em que aquele homem estava ali estava-se diante do que se costuma chamar de silêncio de Deus, ou seja, cerca de quatrocentos anos, desde a volta do exílio babilônico até o ministério de João Batista. Por isso, mesmo não querendo entrar em discussão sobre ser ou não uma realidade, o certo é que aquele homem foi curado por Cristo e isso nos faz apegarmo-nos a corrente que entende que não passava de uma lenda o anjo vir agitar as águas do tanque, mas Jesus sim, era uma realidade, por isso ele cura aquele paralítico, mesmo sendo sábado.
            Curar enfermos, cegos, coxos, mostrar o caminho da vida era seu ministério, fazer a vontade do Pai era seu ministério e ele não poderia deixar de mostrar os sinais da graça para um povo que estava desiludido e, ao mesmo tempo, conformado com a situação religiosa de Israel.
            Para cumprir as profecias messiânicas, contidas no Antigo Testamento, que falavam de um enviado atuante, apresentando características diferenciadas em relação a tudo que Israel havia visto é parte do seu ministério e, às vezes, Jesus praticava os sinais quase que como uma afronta à elite israelita, mas o objetivo mesmo era provar que Deus, agora estava encarnado e as regras acrescentadas pelos judeus à lei não eram empecilho para a ação de Deus. Talvez o que levou Jesus a ter misericórdia daquele homem foi o tempo de espera dele por uma cura, ou talvez foi a razão da insensibilidade dos judeus de classe nobre que tinham vários miseráveis sofrendo naquele à margem daquele tanque e nada faziam para minorar-lhes os suplícios, ou ainda, talvez foi a necessidade de mostrar que Deus é Todo Poderoso, real, misericordioso e estava, de fato atuando por seu Filho, no mundo. Certo é que houve um milagre e isso causou um grande impacto na vida do povo de Jerusalém.
            Outra coisa que podemos perceber no texto é a sua atualidade. Primeiro para a época de Jesus e depois para os nossos dias quando ele diz no versículo 17 “meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também”, ou seja, Deus está atuando em prol do mundo, seu trabalho é atual, é hoje e a igreja precisa ter noção disso e não viver como se estivéssemos num grande descanso de Deus, onde ele nada vê, nada faz, mas devemos lembrar do que o Mestre diz em Jo 9.4  “é necessário que façamos as obras daquele me enviou, enquanto é dia; a noite vem quando ninguém pode trabalhar. A sua misericórdia atua diariamente Lm 3.22,23, por isso devemos estendê-la a todos os homens.
            Contemporaneamente, a igreja precisa cumprir o seu papel de demonstrar os sinais da graça de Deus e agir de forma a mostrar o seu poder ao mundo. Se não realizar o milagre de abrir os olhos aos cegos, ou fazer um coxo andar, o que é plenamente possível, pois Deus não deixou de atuar no mundo, mas precisa apresentar a misericórdia de Deus aos homens fazendo algo por aqueles que estão à margem da vida, perdidos, paralisados pelo pecado, pelas dores do mundo.

COM O PROPÓSITO DE CONFRONTAR OS LEGALISTAS CEGOS  

            Os judeus dividiam o Antigo Testamento em Lei e Profetas, tanto é que Jesus apresenta essa divisão quando discursa no Sermão do Monte Mt 5.17. Uma corrente judaica, a dos fariseus, esperava o Messias como alguém legalista igual a eles, pois no livro de Dt 18.15 Moisés anuncia a Jesus Cristo dizendo: “O Senhor Teu Deus te suscitará um profeta como eu, do meio de ti, de teus irmãos. A ele ouvirás”. Os fariseus, então, interpretavam este texto de forma literal, ou seja, o Messias seria um legislador e, para governar precisava de pessoas como eles, devotados à lei mosaica, mestres, intérpretes dela e, portanto, qualquer descuido, por menor que fosse condenaria o insubmisso.
            Veio Jesus e contraria a má interpretação que os fariseus davam a lei, primeiro ampliando o seu alcance, quando fala no Sermão do Monte, transformando a literalidade em princípios, dizendo que pecado não era apenas matar, mas sondar, maquinar; adultério era muito mais do que praticar um ato sexual em desacordo com a lei, mas apenas o fato de um pensamento impuro já concretizaria o pecado. Depois ele condena o excesso de legalismo dos fariseus, quando diz no capítulo 23 de Mateus:
“os escribas e fariseus estão assentados na cadeira de Moisés. Portanto, observai e fazei tudo o que vos disserem. Mas não procedais de conformidade com as suas obras, pois dizem e não fazem. Atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem nos ombros dos homens; eles, porém, nem com o dedo querem movê-lo” (Mt 23.2-4).
            O confronto de Jesus aos seus perseguidores foi justamente no ponto nevrálgico do cumprimento da lei, o sábado. Os fariseus, que significa “separados”, tentavam fazer o povo voltar à verdadeira adoração, porém, com um culto exterior, para que se cumprisse a lei de Moisés estabeleceram cerca de 1.500 (um mil e quinhentas) regras sobre a guarda do sábado e uma delas era a impossibilidade de uma pessoa transportar algum objeto pessoal no dia de sábado. Jesus ao curar o paralítico de Betesda ainda lhe determina que carregue o seu leito. Para os judeus houve dois crimes, curar num sábado, o que era proibido e carregar o leito, o que também era proibido.
            Comentando esse ‘descumprimento’ da lei, David H Stern[2] vai nos dizer:
“a Mishnah deixa claro que carregar coisas numa área pública no Shabat é ilegal. Mas, numa cidade murada como Yerushalayim um arranjo legal especial chamado ‘eruv[3] torna legal carregar coisas no Shabat. Talvez esse homem tivesse sua casa fora dos muros de Yerushalayim (Jerusalém), além da área de atuação do ‘eruv, ou poderia ser alguém sem casa, que dormia em seu leito fora da cidade. Outra possibilidade: ele não teria ainda deixado Yerushalayim e ainda estaria na era do Templo, mas o povo da Judeia percebeu que ele estava para sair e foi alertá-lo para não violar o Shabat ou carregar seu leito através dos portões. Note, contudo, que os homens da Judeia ignoraram a cura miraculosa de concentraram-se somente na infração da sua versão da lei; eles não conseguiram ver que o homem anteriormente paralítico, carregando seu próprio leito, atestava a glória de Deus”.
A conclusão é que Jesus não violou o sábado ao curar o enfermo, nem quando o mesmo transportou o seu leito, mesmo que tenha sido a mando do Senhor, pois havia uma brecha que permitia tanto a cura, quanto o transporte do leito e o milagre foi feito dentro dos muros de Jerusalém.
Podemos fazer a aplicação desse ponto para a igreja dizendo que muitas vezes estamos tão aficcionados com as regras de etiqueta, de modelos sócio cultural que esquecemos o mais importante, a misericórdia de Deus em favos dos homens.

COM O PROPÓSITO DE REVELAR O FILHO DE DEUS E SUA MISSÃO

            Depois da cura do homem e tendo sido ele flagrado transportando leito dentro de Jerusalém vem o próximo passo, talvez o mais importante deste texto, Jesus começa a ser revelado aos poderosos. No capítulo 4 vemos que houve discussão sobre o ministério do Senhor ser maior do que o de João Batista (4.1), aqui o processo de revelação de Deus, provando a presença “EMANUEL” Deus conosco se manifesta de forma sobrenatural com uma cura grandiosa, pois um homem que não tinha mais esperança foi curado. Aí vemos, sem dúvida, o propósito revelativo de Deus, pois aquele homem causou espanto quando disse no templo que havia sido curado e, depois aponta aos fariseus quem o curou. Esse episódio gerou uma discussão entre Jesus e os fariseus, a partir do versículo 17, quando, então Jesus se revela como o Filho de Deus, chamando Deus de Pai, o que era expressamente proibido pelos judeus.
            Yaweh (YAWH) poderia ser Todo Poderoso, SENHOR, mas jamais ter alguém como filho na terra. Esse era o pensamento dos judeus religiosos, intérpretes da lei. O evento da cura e o diálogo com os fariseus levou estes a querer matar a Cristo (v. 18), contudo, ele não se intimidou com as ameaças, mas revela a sua missão (v. 19) como Filho de Deus, como co igual com o Pai e como verdadeiro cumpridor da vontade do Pai, contrariando a visão farisaica de que eles eram realmente cumpridores da lei. Eles e somente eles. No entanto, não tinham a sensibilidade de perceber que havia algo a ser agradecido a Deus, ou seja, a cura de um homem.
            A insensibilidade do povo é um dos pecados denunciados por Isaías em seu livro e por Amós (Is 1.3, 11,17; 5.20; Am 4.1; 5.7 e outros textos proféticos). A insensibilidade é a razão da queda de Judá. Mesmo depois de ter passado pelo que passaram o povo continuava insensível, sem atentar para as obras de Deus. Não perceberam que Cristo era o Messias, não perceberam que ele estava apresentando os sinais da graça traçado por Isaías em seu livro, não perceberam que haviam se tornado legalistas, mesquinhos, hipócritas e, portanto, cegos para enxergarem as obras de Deus e surdos para ouvirem a sua voz.
            As vezes também nos tornamos assim, mas é preciso voltarmo-nos para Deus e ouvirmos a sua voz, vermos as suas obras, mesmo diante das agruras, mesmo diante daquilo que achamos que é correto aos nossos olhos, pois tem algo maior do que nós que nos é revelado todos os dias, a vontade de Deus que se acha na sua palavra.
            Jesus Cristo foi revelado quer os fariseus quisessem ou não e a igreja precisa ter intrepidez do Mestre e continuar a revela-lo ao mundo quer o mundo queira ou não, pois somente a pregação da palavra e a demonstração dos sinais da graça de Deus fará com que o mundo mude.

           

APLICAÇÃO

            A igreja não muita consciência do poder de Deus que lhe foi conferido por Jesus quando anuncia em Mt 28.19,20 todo o poder me foi dado nos céus e na terra, ou quando fala em Mc 16.17,18, ou seja, sinais da graça que acompanharão os escolhidos. A lição de hoje, espero, deve servir para que despertemos para ação de Deus, cujas mãos não estão encolhidas, nem os ouvidos tapados (Is 59.1), por isso três coisas são imprescindíveis para o seu povo hoje: a atualidade do seu poder e do seu agir; b) a necessidade de confrontar o mundo com seus conceitos equivocados sobre Deus e o seu reino e a necessidade de revelar a Cristo, sem demora ao mundo, para destape os ouvidos e possa ver a sua glória.




[1]1. A água transformada em vinho. (2) 2. A cura do filho de um oficial do rei (4). 3. A cura do paralítico de Betesda. (5) 4. A multiplicação dos pães. (6) 5. Jesus andou sobre o mar. (6) 6. A cura do cego de nascença. (9) 7. A ressurreição de Lázaro. (11) 8. A pesca milagrosa. (21)
[2] STERN, DAVID. H, Comentário Judaico do Novo Testamento,  São Paulo, 2008, 1ª edição, Templus, pág. 196.
[3] Era uma fórmula simbólica recitada pelos judeus, a fim de quebrar a regra que eles mesmos estabeleceram sobre o não trabalhar no sábado, assim, após a recitação da fórmula eles poderiam carregar alguma carga dentro dos muros, cozinhar, andar, fazer negócios e driblavam a norma que a Mishnah estabelecia sobre a guarda do sábado.

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