quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Meditação

TRAGÉDIAS NÃO SE EXPLICAM...

Como se explicam as tragédias? Será que existe alguma explicação plausível? Será que é certo tentar achar algum sentido naquilo que não compreendemos? Por que há momentos em nossa vida que temos a impressão de que tudo está caindo e não temos nenhuma segurança? Como explicar a morte, a dor e a angústia que parece invadir e rasgar a alma?
Essas são questões naturais diante do incompreensível. As tragédias não surgem para serem compreendidas, mas para serem vivenciadas de modo que venhamos a crescer em meio à dor. A Bíblia está cheia de histórias de pessoas que passaram por situações inexplicáveis do ponto de vista humano. Adão não procurou compreender porque Caim matou Abel, mas consolou-se em Sete (Gênesis 4:25,26). Abraão não procurou questionar os méritos de Deus em pedir Isaque, mas obedeceu de forma plena (Gênesis 22:1-5). José não reteve em si amargura e revolta diante da traição de seus próprios irmãos, mas deixou Deus cuidar daquilo que só Deus tinha domínio (Gênesis 50:20). Há outros personagens que vivenciaram momentos difíceis em suas vidas. Mas há dois que nos trazem grandes ensinos sobre a vivencia na tragédia.
A primeira personagem é Noemi. Ela era casada com um homem chamado Elimeleque e tinha dois filhos. Por causa de um período de fome e carestia, Elimeleque e sua família foram para a terra de Moabe. Talvez pensassem que indo à outra terra teriam um melhor momento, mas aconteceu justamente o contrário. Noemi perdeu o marido e ela ficou sozinha com os dois filhos. Seus filhos casaram-se, mas depois de quase dez anos os filhos não tiveram filhos e, além disso, morreram. Essa era uma tragédia para Noemi, pois agora ela estava sozinha e sem filhos. Então ela decide voltar à sua terra. Orfa, sua nora, voltou à casa de seus pais, mas Rute ficou com ela.
O primeiro sentimento de Noemi é de abandono, principalmente de Deus. Noemi chega a dizer as pessoas de sua cidade natal: “... Não me chamem Noemi, melhor que me chamem de Mara, pois o Todo-poderoso tornou minha vida muito amarga! De mãos cheias eu parti, mas de mãos vazias o Senhor me trouxe de volta. Por que me chamam Noemi? O Senhor colocou-se contra mim! O Todo-poderoso me trouxe desgraça!” (Rute 1:20,21). Noemi significa “agradável”, mas ela não se sentia agradável, mas “amarga” (esse é o sentido de Mara). Ela via seu sofrimento como algo vindo de Deus, mas não O culpava por aquilo. Ela também não quis entender, apenas vivenciar a dor e sofrimento de uma viúva sem filhos e certamente numa situação difícil.
O segundo personagem é a clássica figura de Jó. Ele era um homem íntegro e justo. Seu caráter era algo tão valioso que ele fazia seus filhos se purificarem e oferecia holocaustos em favor deles (Jó 1:1-5). Mas sua vida mudou de uma hora para outra, pois perdeu seus bens num ataque de tribos nômades (1:13-15; 17) e num fogo que caiu do céu (1:16). Além dos bens perdeu todos os filhos numa tempestade (1:18,19). Tudo isso ocorreu num mesmo dia. Jó não tentou compreender a provação, mas louvou a Deus (Jó 1:20-22).
Não fosse isso o bastante, Jó foi ferido em seu corpo, tendo feridas da sola do pé ao alto da cabeça (2:7). Ele raspava a pele com um caco de barro e ficava sentado na cinza. Ainda por cima tinha que suportar uma mulher iníqua que o mandou amaldiçoar a Deus e morrer (2:9). Embora não tivesse pecado contra Deus, Jó vivenciou sua angústia e a tragédia com questionamentos de uma alma que tentava compreender tudo.
As duas experiências são bem interessantes. Noemi, embora angustiada, não quis compreender o porquê das coisas. Isso a fez perceber a mão de Deus quando Rute foi trabalhar no campo de Boaz sem que esta soubesse que ele era um parente de Noemi (Rute 2:20). Ao perceber a fidelidade do Senhor Noemi confiou sua vida nas mãos Daquele que pode resgatar os que confiam em Seu poder (Rute 4:14,15). Jó, mesmo não pecando com os lábios contra Deus entrou em crise consigo mesmo (Jó 3:1); no pesado diálogo que travou com seus amigos tentava compreender como Deus tinha permitido tudo aquilo.
Deus não falou com Noemi uma só palavra, mas ela percebeu a ação de Deus em prover Rute como uma filha e como Boaz – o segundo na responsabilidade de ser o resgatador – foi fiel e íntegro em restaurar a condição da família de Elimeleque. Jó, no entanto, ouviu a voz de Deus. E o Senhor lhe falou no meio de uma tempestade (Jó 38:1) e lhe inquiriu de forma enfática: “Onde você estava quando lancei os alicerces da terra? Responda-me, se é que você sabe tanto” (Jó 38:4). Deus não respondeu nenhuma das questões que Jó fez – e soberanamente tinha o direito de não responder – mas o levou a perceber o quanto Jó era pequeno diante das verdadeiras questões da existência.
Tragédias não se explicam, não são eventos que nos trazem uma solução matemática onde vemos o que deu certo ou errado. Por que o tsunami e o terremoto no Japão mataram 23 mil pessoas? Por que os pitots de um avião de última geração falham e pilotos treinados entram em pane e tudo termina na morte de 228 pessoas? Como compreender tragédias que acometem famílias e vidas, seja com a morte, com a doença ou com a perda de um emprego? Não sejamos tolos a pensar que temos a capacidade de saber de tudo, pois de fato não somos Deus.
Tragédias não se explicam... Tragédias são vivenciadas. Mas sem a graça de Deus essa vivência torna-se ácida e dura; com a graça de Deus a vivência torna-se mais suave e menos dura. Sem a graça de Deus chegamos fatalismo; com a graça de Deus chegamos a conclusão de Jó: “Tu perguntaste: ‘Quem é esse que obscurece o meu conselho sem conhecimento?’ Certo é que falei de coisas que eu não entendia, coisas tão maravilhosas que eu não poderia saber... Meus ouvidos já tinham ouvido a teu respeito, mas agora os meus olhos te viram” (Jó 42:3,5).

Boa semana e ótima leitura, Pr. Gilson Jr.

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