ESTUDO SOBRE O EVANGELHO DE JOÃO
TÍTULO: JESUS O VERBO DE DEUS
Texto básico: Jo 1.1,2
“1 No princípio era o verbo, e o verbo estava com Deus, e o verbo era Deus. 2 Ele estava no princípio com Deus. 3 Todas as coisas foram feitas por meio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez.”.
INTRODUÇÃO
Qual a necessidade de estudar o evangelho de João? A esta pergunta podemos responder de forma genérica, dizendo que é a mesma necessidade de estudar qualquer outro livro da Bíblia, pois somente assim, conheceremos mais a Deus e nos aproximaremos dEle e o amaremos, ou seja, teremos comunhão com Ele. Entretanto, a resposta mais adequada a esta pergunta é porque o Evangelho de João é um livro diferenciado dos demais evangelhos e onde descobrimos a revelação de Deus, o Deus encarnado, de forma mais contundente e real, pois enquanto os demais evangelhos – sinóticos – mostram a história de Jesus, João mostra o Jesus histórico, encravado nos textos dos profetas, dos salmos, dos livros históricos e dos poéticos do Antigo Testamento.
Poderíamos apontar outras razões para estudar o evangelho de João, no entanto, vamos descobrir essas razões, de forma prática, dentro do estudo.
VISÃO GERAL DO LIVRO
AUTORIA E DATA
O autor do quarto evangelho[1] é o apóstolo[2] João. Muito embora a alta crítica[3] e os teólogos liberais discordem dessa autoria, com vários argumentos, dentre eles:
a) João e seu irmão Tiago teriam sido martirizados pelos judeus, no início da obra de Igreja (At 12.2), tendo, naquele momento se cumprido a profecia de Jesus em Mt 20.22, 23;
b) Existia em Éfeso um presbítero chamado João e esse teria sido o autor do quarto evangelho;
c) A cristologia desse evangelho é elevada demais para ter sido escrita por um cristão da primeira geração.
Porém, a tradição da Igreja assegura que o autor foi mesmo João.
A respeito da autoria o próprio livro traz várias passagens nas quais aparecem o escritor, que na sua humildade sempre se lança na terceira pessoa (Jo 13.23, 25; 18.15; 19.26 e 20.8), ou seja, somente quem estava muito perto dos acontecimentos messiânicos poderia escrever tão bem, como ele escreveu.
O livro foi escrito entre 69 e 90 d.C, em Éfeso, onde João passou muito tempo e onde, possivelmente morreu, por volta do ano 98 d.C, após ter voltado da ilha de Patmos[4], para onde havia sido desterrado em razão da perseguição de Domiciano[5], no ano 95 d.C, mas voltou em 96 d.C, durante o reinado de Nerva[6].
PROPÓSITO DO LIVRO
O propósito do evangelho de João está em Jo 20.30, 31 e é duplo: a) crermos que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus; b) e ao crermos tenhamos vida em seu nome.
PALAVRA CHAVE DO LIVRO
A palavra chave do livro de João é CRER, essa palavra aparece mais de 25 vezes (Jo 1.7; 2.22; 3.15, 16; 3.18; 4.39, 42, 50, 53; 5.24, 46; 6.69; 7.5, 31; 9.35; 10.26, 38; 11.15, 45; 12.37; 14.1; 17.20; 19.35; 20.8, 29 31).
ANÁLISE DO LIVRO
O evangelista começa dizendo: “No princípio[7] era o verbo[8] e o verbo estava com Deus, e o verbo era Deus. 2. Ele estava no princípio com Deus.
O texto tem semelhança com Gn 1.1: “No princípio criou Deus os céus e a Terra”. Contudo, a semelhança está apenas nos vocábulos, pois a ideia de Jo 1.1 não é a mesma de Gn 1.1. Em Gn 1.1 a ideia é de princípio cronológico[9] enquanto em Jo 1.1 a ideia é de tempos eternos (tempo de Deus)[10], mas não somente isso tem o objetivo de qualificar Cristo como tendo a mesma natureza de Deus, ou seja, Jesus é Deus.
Aqui é a base para começarmos a sustentar a doutrina das duas naturezas de Cristo, a divina e a humana, o que a Teologia Sistemática chama de união hipostática[11]. João informa que Jesus participou da criação: Jo 1.3: Todas as coisas forma feitas por intermédio dele, e, sem ele nada do que foi feito se fez. Essa doutrina da criação através de Jesus Cristo é vista também em Sl 33.6; Rm 11.36; Ef 3.9; Cl 1.16, 17 e Hb 1.2.
QUAL O MOTIVO DE JOÃO TER AFIRMADO SOBRE AS DUAS NATUREZAS DE CRISTO, SOBRE SER ELE O PRÓPRIO DEUS ENCARNADO E CRIADOR DE TODAS AS COISAS?
Surgiu desde o início da segunda metade do primeiro século cristão um grupo de “cristãos” dualistas que negavam ou a humanidade de Cristo ou sua divindade. Diziam eles que Jesus não era humano ele havia se apoderado de um corpo, pois para eles a carne é sempre má e o espírito bom ou diziam que Jesus era um AEON, ou seja, uma emanação dos deuses, um espírito de luz e a salvação consistia num conhecimento especial, dado apenas aos escolhidos, os quais seriam salvos quando o espírito fosse liberto do corpo (um invólucro, uma prisão). Assim não importava o que era feito com o corpo, se o sacrificávamos ou praticávamos atos licenciosos, uma vez que o corpo não servia para nada a não ser aprisionar o espírito. O apóstolo Paulo também vai combater essa doutrina, em 1Co 6.19. Para eles a dualidade não consistia em bem e mal, mas em espírito e matéria e diziam também, que Jesus não morreu ele foi liberto da carne má. Diziam, também que Jesus era um fantasma. Enfim, o gnosticismo era uma fusão de filosofia grega, com as religiões pagãs mais judaísmo e cristianismo e João teve, também, como objetivo demonstrar o Jesus histórico, a fim de combater esse mal que assolava a igreja naquela época, demonstrando que Jesus é o Cristo, o Messias prometido, o Filho de Deus, o Criador de todas as coisas e para descobrir essas verdades bastava e basta crer nele.
Um outro objetivo da escritura de João é mostrar que Cristo vivia em glória com o Pai e deixou essa glória para se fazer carne, uma vez que nos amou de forma muito intensa, o que vamos perceber com mais clareza no capítulo 3.16:
“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”.
EM QUE CONSISTE A AFIRMAÇÃO DE JOÃO DE QUE JESUS É O VERBO DE DEUS?
Essa afirmação consiste em:
a) Demonstrar que Jesus é verdadeiramente o messias prometido, o qual aparece desde Gn 2.9 como a ÁRVORE DA VIDA até Ml 4.2, quando aparece como o SOL DA JUSTIÇA, ou seja, o Jesus histórico;
b) Confrontar os gnósticos que eram a seita mais terrível dos primeiros 150 anos da Igreja;
c) Mostrar que ao mesmo tempo Jesus era a palavra absoluta, a sabedoria, a verdade, que os gregos buscavam através da Filosofia de Aristóteles e Platão;
d) Demonstrar que Jesus é a revelação mais compreensível de Deus, pois veio em carne e poderia ser compreendida por nossa mente finita e corrupta;
e) Mostrar que sendo ele Deus, eterno, era e é o único capaz de redimir o homem;
f) Mostrar que quem criou o universo, que para os gnósticos era um ambiente mal por excelência não foi o demiurgo[12], mas Jesus, que é Deus e criador de todas as coisas.
João 1.1 ficaria sem sentido se não houvesse a afirmação dos versículos 10: “o verbo estava no mundo, o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu” e 14: “o verbo se fez carne e habitou entre nós. Vimos a sua glória, a glória como do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade”.
Pois o verbo λογος – não apenas estava desde a eternidade com Deus, mas esteve no mundo, encarnado, foi o criador do mundo, mas o mundo o desprezou. A questão do conhecimento levantado por João diz respeito ao gnosticismo, pois esses pregavam uma conhecimento especial para poder libertar o espírito da prisão do corpo, mas Jesus era o verdadeiro conhecimento, o logos de Deus, o Deus encarnado para salvar o homem.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Hendriksen, William, Comentário do Novo Testamento, João, 1ª edição, São Paulo, 2004, Editora Cultura Cristã.
ISIDRO PEREIRA, S. J, Dicionário Grego Português e Português Grego, 8ª edição, Braga/PT.
LADD, George Eldon, Teologia do Novo Testamento, 1ª edição, São Paulo, 2009, Hagnos.
RIENECKER, Fritz e ROGERS, Cleon, Chave Linguística do Novo Testamento Grego, 1ª edição, 2009, São Paulo, Vida Nova.
STERN, H David, Comentário Judaico do Novo Testamento, 1ª edição, 2008, São Paulo, Templus.
Shedd, Russel, Bíblia de estudo, versão Revista e Atualizada, 2ª edição, São Paulo Edições Vida Nova.
SCOLZ, Vilson, Novo Testamento Interlinear Grego Português, 2ª edição, 1993, Barueri, Sociedade Bíblica do Brasil.
[1] ευαγγέλιον = Evangelho – boas novas
[2] απόστολος = apóstolo - enviado
[3] Movimento de exegese bíblica que busca encontrar a autoria e data dos livros bíblicos a partir de fontes, as mais variadas e, geralmente no intuito de contestar a autoria dos apóstolos e mais recentemente tem se tornado um movimento cultural quase cético, atribuindo à Bíblia o valor de um mero livro.
[4] Ilha que fica localizada a cerca de 100Km de Éfeso, no Mar Egeu, antiga Ásia Menor.
[5] Tito Flávio Domiciano, foi imperador de Roma de 81 a 96 d.C.
[6] Marco Coceio Nerva foi imperador de Roma de 96 até sua morte em 98 d.C.
[7] αρχή = princípio, começo, início
[8] λογος = palavra, verbo, ação.
[9] χρονος = tempo humano.
[10] καιρός
[11](υ) Υπόστατιχός = substância, união de duas substâncias uma material e outra espiritual, de forma independentes e sem sobreposição
[12] Uma entidade divina nos trabalhos de Platão, cerca de 360 a.C. e mais tarde, considerado pelos gnósticos como o maligno deus criador do mundo material, que seria em resumo Zeus.
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